quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gestalt

A Gestalt (ou psicologia de forma) teve como precursor Ehrenfels, que já em 1890 refletia sobre as qualidades da forma. Mas a teoria foi desenvolvida de fato no começo do século XX por Wollfang Kohler e Kurt Koffka, teóricos que sofreram explicitamente a influência da fenomenologia e, que nesse sentido, opõem-se às psicologias de tendência positivista.
A psicologia derivada da tendência empirista tentava reduzir a percepção a uma análise rigorosa, até encontrar o "átomo" psíquico fundamental. O mundo percebido seria inicialmente uma grande confusão de sensações, cujos fragmentos se organizariam trabalhosamente pelo processo de associação, pela qual resultam por fim as percepções e depois as idéias.
Os gestaltistas afirmam que não há excitação sensorial isolada, mas complexos em que o parcial é função do conjunto. Isso significa que o objeto não é percebido em suas partes, para depois ser organizado mentalmente, mas se apresenta primeiro na totalidade (na sua forma, na sua configuração), e só depois o indivíduo atentará para os detalhes.
O conjunto é mais que a soma das partes, e cada elemento depende da estrutura a que pertence. Quando ouvimos uma melodia, não percebemos inicialmente as notas de que ela se compõe: por isso podemos ouvi-la com todas as notas diferentes quando transposta para outro tom e reconhecê-la assim mesmo. No entanto, se uma só nota é alterada, altera-se o todo. Na transposição para outro tom, a estrutura da melodia permanece a mesma, ao passo que no último caso há alteração estrutural.
No dia-a-dia encontramos inúmeros exemplos da tendência à configuração: sempre vemos formas nas nuvens (rosto, cachorro, dragão..); as constelações representam cruz. o escorpião; reconhecemos um rosto familiar, mas longe dele muitas vezes não nos lembramos bem dos detalhes. Já pensaram como é difícil descrever alguém para um retrato falado? Isso porque percebemos o rosto no seu conjunto, e não nos detalhes.
A tendência para organizar aquilo que é percebido significa a impossibilidade de existir o fato bruto, pois o objeto é elaborado e nunca aparece na percepção tal como existe em si. O sujeito estrutura organicamente o que está apenas justaposto ou leva à perfeição formas apenas esboçadas.
Tudo o que dissemos para a percepção vale para o comportamento dos animais e das pessoas: há que partir da admissão de um campo total em que o organismo e o meio entram como dois pólos correlativos que constituem o verdadeiro ambiente da ação. Assim, um espaço se estrutura de forma diferente se o percorro como faminto, como fugitivo ou como artista.
Kohler fez diversas experiências com chimpanzés. Numa jaula, o problema de alcançar uma banana inacessível é resolvido pelo chimpanzé quando ele sobe em um caixote para pegar a fruta, ou quando usa um bambu para derrubá-la. Segundo Kohler, para solucionar o problema, o chimpanzé deve perceber como um todo o campo onde se situa, ou seja, ele só tem o insight (intuição, "iluminação súbita") quando estabelece a relação fruta-caixote ou fruta-bambu. Dá-se então "fechamento", ou seja, a predominância de uma determinada forma sobre outras.

(Fonte: Livro “FILOSOFANDO” 2003, p.207)

LEIS GESTALTISTAS DA ORGANIZAÇÃO

A Teoria da Gestalt, em suas análises estruturais, descobriu certas leis que regem a percepção humana das formas, facilitando a compreensão das imagens e idéias. Essas leis são nada menos que conclusões sobre o comportamento natural do cérebro, quando age no processo de percepção. Os elementos constitutivos são agrupados de acordo com as características que possuem entre si, como semelhança, proximidade e outras que veremos a seguir. O fato de o cérebro agir em concordância com os princípios Gestálticos já poderia ser considerada a evidência fundamental de que a Lei da Pregnância é verdadeira.
São estas, resumidamente, as Leis da Gestalt:

SEMELHANÇA: Ou “similaridade”, possivelmente a lei mais óbvia, que define que os objetos similares tendem a se agrupar. A similaridade pode acontecer na cor dos objetos, na textura e na sensação de massa dos elementos. Estas características podem ser exploradas quando desejamos criar relações ou agrupar elementos na composição de uma figura. Por outro lado, o mau uso da similaridade pode dificultar a percepção visual como, por exemplo, o uso de texturas semelhantes em elementos do “fundo” e em elementos do primeiro plano.
PROXIMIDADE: Os elementos são agrupados de acordo com a distância a que se encontram uns dos outros. Logicamente, elementos que estão mais perto de outros numa região tendem a ser percebidos como um grupo, mais do que se estiverem distante de seus similares.
BOA CONTINUIDADE: Está relacionada à coincidência de direções, ou alinhamento, das formas dispostas. Se vários elementos de um quadro apontam para o mesmo canto, por exemplo, o resultado final “fluirá” mais naturalmente. Isso logicamente facilita a compreensão. Os elementos harmônicos produzem um conjunto harmônico.
PREGNÂNCIA: A mais importante de todas, possivelmente, ou pelo menos a mais sintética. Diz que todas as formas tendem a ser percebidas em seu caráter mais simples: uma espada e um escudo podem tornar-se uma reta e um círculo, e um homem pode ser um aglomerado de formas geométricas. É o princípio da simplificação natural da percepção. Quanto mais simples, mais facilmente é assimilada: desta forma, a parte mais facilmente compreendida em um desenho é a mais regular, que requer menos simplificação.
CLAUSURA: Ou “fechamento”, o princípio de que a boa forma se completa, se fecha sobre si mesma, formando uma figura delimitada. O conceito de clausura relaciona-se ao fechamento visual, como se completássemos visualmente um objeto incompleto. Ocorre geralmente quando o desenho do elemento sugere alguma extensão lógica, como um arco de quase 360º sugere um círculo. O conceito de boa continuidade está ligado ao alinhamento, pois dois elementos alinhados passam a impressão de estarem relacionados.
EXPERIÊNCIA PASSADA: Esta última relaciona-se com o pensamento pré-Gestáltico, que via nas associações o processo fundamental da percepção da forma. A associação aqui, sim, é imprescindível, pois certas formas só podem ser compreendidas se já a conhecermos, ou se tivermos consciência prévia de sua existência. Da mesma forma, a experiência passada favorece a compreensão metonímica: se já tivermos visto a forma inteira de um elemento, ao visualizarmos somente uma parte dele reproduziremos esta forma inteira na memória.
ANÁLISE DAS IMAGENS: Para se fazer uma análise sintática de uma imagem, é preciso, necessariamente, identificar os principais elementos que da composição. E tratar a imagem não como a semiótica, que faz a análise da ligação e significado das partes que a compõem mas sim do ponto de vista da percepção do olho humano, do modo de estruturar naturalmente os seus elementos gráficos em nossa mente. Foi justamente para estudar essa percepção que desenvolveu-se a Teoria da Gestalt. Propõe essa teoria, entre outras regras, que o cérebro humano tende automaticamente a desmembrar a imagem em diferentes partes, organizá-las de acordo com semelhanças de forma, tamanho, cor, textura etc., que por sua vez serão reagrupadas de novo num conjunto gráfico que possibilita a compreensão do significado exposto.
A Gestalt estabelece sete relações através das quais as partes da imagem são agrupadas na percepção visual: proximidade, semelhança, direção, pregnância, boa continuidade, fechamento e experiência passada. Esse dom natural de “arrumar” as informações passadas em seu cérebro possibilita ao homem assimilar esses dados com maior facilidade e rapidez. Na Arte figurativa, em geral, a preocupação na organização e disposição dos elementos utiliza-se dos mesmos princípios posteriormente estudados pela Gestalt, desde os estudos de Leonardo Da Vinci e Alberti sobre a perspectiva e a hierarquização dos componentes, podendo os valorizar, dar-lhes destaque ou relegando-os a segundo plano, tendo como resultado na obra final um papel principal e destacado, logo percebido pelo espectador, ou secundário no entendimento da cena.
Em Gestalt, explicamos esse “fenômeno da percepção” através da decomposição e imediata recomposição das partes em relação ao todo. Não é muito diferente com a imagem comunicativa. Os mesmos elementos da figura artística se aplicam à comunicação visual, inclusive a retórica. Uma imagem é capaz de ter a mesma eloqüência que um discurso falado ou mesmo que um livro. Tudo depende da ordem e da intensidade em que são organizados: a sua configuração ou Gestalt. Seja texto ou imagem, estamos lidando com discursos da propaganda, e daí devemos perseguir sempre os elementos fundamentais desses objetos de análise.


(Fonte:http://www.mitologica.com.br/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=2)

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